
Não deixe essa oportunidade dançar. Melhor vc DANÇAR na oportunidade!
Publicada em 13/10/2009 – Revista Megazine – Jornal O Globo
Lauro Neto
RIO - Foi a primeira vez dessa galera no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, na região da Praça Tirandentes. E foi uma estreia inesquecível. Em nova fase, o espaço - agora sem o acervo do pintor e escultor carioca que lhe empresta o nome - abriga até dezembro três ousadas mostras de artistas contemporâneos. Os 20 alunos da Spectaculu, escola de artes cênicas e visuais do cenógrafo Gringo Cardia, surpreenderam-se com o que viram numa visita guiada conduzida pela gestora do centro, Ana Durães, e pelo próprio Gringo.
De cara, a exposição interativa "Life [in progress]", do esloveno Janez Jan?a, eletrizou os visitantes, convidando-os a participar de experiências que vão de beijar um desconhecido a enfiar a cabeça num balde, traçar num mapa o itinerário de casa ao centro de arte ou reinterpretar "Guernica", obra máxima de Picasso.
A vestibulanda Lilian Araújo, de 18 anos, era uma das mais empolgadas. Ao som de "Viva la vida", do Coldplay, ela seguia à risca os imperativos de uma das instalações: "Lembre-se de todos os amores que você teve. Escreva seus nomes com giz. Apague-os dançando sobre eles".
- Aqui há liberdade para tocar e mexer nas coisas, compartilhar... Já cortei meu cabelo, enfiei a cabeça no balde d'água e estraguei minha maquiagem - vibrava Lilian, ao apagar quatro ex-amores do chão.
Logo ao lado, Leonardo Oscar e Ricardo Silva confabulavam sentados a uma mesa com o cartaz "Você precisa de alguém para falar. Sente-se aqui e espere alguém que também precise falar com alguém". Esperavam uma terceira ou quarta pessoa.
- Das meninas daqui, quem você pegaria? - cogitava Leonardo, que, minutos depois, estava dando ideia em uma amiga de turma na mesma mesa.
Eles não chegaram a concluir a experiência "Lembre-se do primeiro beijo. Encontre uma pessoa com a qual queira viver isso de novo. Beije essa pessoa", mas teve muita gente escrevendo sua "última" carta de amor. Em meio a tanta paixão, não estranhe se ouvir o estilhaçar de um prato ou vir alguém queimando um papel com o defeito de que mais se envergonha. O espaço também dá margem a sentimentos como fúria, vergonha e indignação. Uma das instalações mais polêmicas é a que instiga o público a cortar pedaços da bandeira brasileira caso sinta vergonha de sua nação.
- É muito legal, uma desobediência total. Mas não vou cortar, não - esquivou-se Gringo.